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  • Isabel Valente

Filhos - rebeldia ou descoberta de si mesmos?



Enquanto pais sabemos que temos o dever de olhar pela nossa prole, pela sua saúde, bem-estar e educação. E o certo é que, de uma ou outra forma, esse é sempre o objetivo em mente quando os ensinamos a andar, cuidar da sua higiene, dos seus brinquedos, dos seus deveres escolares e afins.


Todavia, por vezes distraímo-nos com esse papel "de quem decide tudo por eles" sem procurar perceber qual a sua vontade, quais os seus gostos ou preferências ou, se quiserem, quais as coisas que odeiam fazer. Não falo apenas do que gostam ou não gostam de comer, mas também do que gostam de jogar, inventar, magicar ou, por exemplo, o que se imaginam a fazer no futuro!!


Cá por casa por exemplo, temos a política de comer vegetais todos os dias e o que vai para o prato é para comer, o que nunca nos trouxe dramas ou birras. Temos bons garfos à mesa e isso fez sempre das nossas refeições momentos agradáveis. Contudo, há alguns anos atrás fomos surpreendidos com o choro inconsolável de um dos nossos filhos quando se apercebeu que tínhamos bacalhau com natas para o jantar - foi birra, choro, foi "não quero comer!"... e a nossa paciência no limite!


Confesso que precisei de uma pausa "disfarçada de ida ao wc"para respirar, mas quando voltei, vendo as lágrimas gordas que lhe corriam pela cara, perguntei-lhe simplesmente porque não queria comer aquele prato - "Faz-me impressão ver tudo desfeito e não gosto do sabor a natas... é muito forte! Eu já provei, mas eu não gosto mesmo!"


Chocados, apercebemo-nos de repente que, embora nos consideremos pais atentos, não estávamos a aceitar que o nosso filho tinha direito às suas preferências, independentemente dos nossos gostos. A medo concordamos que não tinha de comer o prato, comendo em vez disso outra taça de sopa e, esperámos que, tendo aberto o precedente, a situação se repetisse, o que não veio a acontecer. Em vez disso, fomos brindados já ao deitar com um "obrigada por me ouvirem" que nos deixou desarmados.




Os anos passaram e posso dizer-vos que, o mais velho continua a não tocar no bacalhau com natas e o mais pequeno não toca em cebola crua, mas sem drama ou birra, porque compreendemos quão importante é dar espaço aos nossos filhos para que sejam eles mesmos, não uma cópia perfeita dos pais!


Assim, quando o mais velho nos disse há dias que não queria ir para a universidade, em vez de nos precipitarmos em sermões de como é importante para a sua vida profissional e "blá, blá, blá", entreolhamo-nos e perguntamos-lhe simplesmente o que queria fazer então


"Quero começar a trabalhar numa quinta no Alentejo para produzir azeite. Já repararam que toda a gente usa azeite para cozinhar? Depois nos tempos livres cozinhava num pequeno restaurante com o pai e recebia as pessoas amigas? Vocês ajudavam-me a fazer isso certo?"

Sorrimos e explicamos-lhe que até para produzir azeite é preciso aprender e que, se essa era a sua vontade, o ideal seria preparar-se da melhor forma para o fazer. De repente a universidade já não era uma obrigação, mas tinha ganho um sentido essencial para o seu projeto de vida. E eis que, do alto dos seus 10 anos exclamou: então acho que afinal quero mesmo ir para a universidade!!"



Sentimos um orgulho enorme enquanto pais, não por termos conseguido que voltasse a considerar a hipótese de ir para a universidade, mas por ter tido a coragem de pensar sobre o que verdadeiramente o faria feliz no futuro, independentemente da profissão dos pais.


A verdade é que os nossos filhos não têm de fazer o mesmo que nós, gostar do mesmo do que nós gostamos ou aceitar tudo o que lhes oferecemos tal qual "pinguins amestrados". Têm sim de compreender o que os faz felizes e ousar lutar por isso!

Continuarão a ser nossos filhos, mas serão seguramente mais felizes porque se percebem como seres únicos e irrepetíveis com uma vida pela frente para sonhar e fazer acontecer!!


Isabel Valente

Mãe, professora e mestre em educação



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