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  • Isabel Valente

Aprender a gerir conflitos- de forma mais simples, curiosa e consciente


Enquanto seres humanos desenvolvemo-nos e crescemos afetiva e socialmente na forma como nos relacionamos com a família, os amigos, os colegas no trabalho ou conhecidos. É com efeito nessa interação que ganhamos consciência de nós mesmos, da nossa identidade, emoções e limites.


Todavia, se existem momentos deliciosos de partilha de alegrias, satisfação e conquistas com os que nos são mais ou menos próximos, momentos há em que nos parece impossível fazê-lo sem ironia ou sarcasmo, gracejos ou piadas maldosas e, muito menos, sem a voz e os batimentos cardíacos “a mil”. Nem sempre conseguimos saber o porquê do conflito e, honestamente, nem sempre nos apetece resolvê-lo, qual adultos amuados em terreno hostil.


Certo é que, na grande maioria das vezes, reagimos de forma abrupta porque nos sentimos atacados, seja ao nível do orgulho quando a nossa competência é colocada em causa, seja ao nível da autoestima quando nos sentimos preteridos; ao nível do poder quando nos sentimos insignificantes ou até mesmo ao nível afetivo, quando nos sentimos traídos. Mais do que atacados sentimo-nos magoados e de todo “desmerecedores” do que quer seja que alguém nos tenha dito ou feito.


Para os mais dramáticos existem os nervos, os berros, os gestos e os adjetivos bem contundentes que ferem mais do que murros no estômago. Para outros, mais passivos, existe o calar infinito que cria ressentimento e vontade de exercer vinganças desmedidas, em olhares de soslaio que criam mais barreiras do que resolvem o problema. De uma forma ou de outra, todos perdem energia, autenticidade, harmonia e a oportunidade de fortalecer relações e ser mais feliz com os outros.


Assim, numa sociedade onde reina o egocentrismo, o consumo e a busca de poder e fama, é essencial cultivar, desde tenra idade, hábitos de consciência e escuta ativa de si mesmo (pela meditação, contemplação e mindfulness) e do outro (pela escuta ativa, a empatia e a partilha de momentos positivos). Apesar de muito evoluídos tecnologicamente, somos e sempre seremos, seres que buscam a plena satisfação das suas necessidades – atenção, significância, poder, conexão e proximidade ou de segurança, muito para além dos instintos básicos de sobrevivência.


Se os conflitos surgem quando os nossos valores e necessidades são beliscados, ridicularizados, manipulados ou até esquecidos, importa aprendermos a arte de os resolver, respeitando o outro nos seus limites e preenchendo as nossas e as suas necessidades numa dinâmica de ganha-ganha que tem mais que ver com uma terceira opção do que com soluções de compromisso onde todos ficam “meio contentes e meio zangados”.


É precisamente isso o que nos propõe o especialista em comunicação não violenta, Marshall Rosenberg, com o seu método repartido em quatro partes igualmente importantes – observação, sentimentos, necessidades e pedidos, pelo qual olhamos a realidade sem julgamentos ou preconceitos – descrevendo-a apenas (difícil, mas não impossível!), para só depois aferir dos nossos sentimentos e necessidades que nos irão conduzir à formulação de um pedido ao outro.


Não é algo que se aprenda de um dia para o outro, mas é um processo em que tomamos cada vez maior consciência do quanto julgamos o outro ainda antes de compreender o que pretende. Na comunicação empática ou não violenta, procuramos substituir o foco do julgamento de “bom ou mau”, “certo ou errado” para a compreensão cada vez mais consciente dos sentimentos que nos suscitam diferentes situações e das necessidades que é preciso atender e resolver. Esta mudança de paradigma faz-nos mais proativos e menos “vítimas” das circunstâncias que não controlamos e, por isso mesmo, mais responsáveis pela resolução de conflitos e nosso bem-estar pessoal.

Para além disso, aprendemos a olhar o outro como alguém com sentimentos e necessidades e não apenas “o monstro” ou a “pessoa cruel ou calculista” que nos persegue como que para estragar o nosso dia ou a nossa semana. Ganhamos uma nova perspetiva sobre nós e sobre o outro ao compreender que emoções e carências é preciso responder para que seja possível convivermos mais em harmonia.


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