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  • Isabel Valente

Asneiras... quando eles não sabem o que dizem!

Updated: Nov 16, 2020



Há dias estava a conversar com alguns dos meus alunos mais novos e, qual não é o meu espanto, quando oiço uma daquelas palavras que têm o condão de nos deixar simultaneamente chocadas e, prestes a explodir de uma só vez. Pensei um milésimo de segundo e quase automaticamente respondi:


- "Não devem repetir essa expressão! É mesmo muito feia!"


Prosseguimos a nossa conversa e qual não é o meu espanto quando dois ou três miúdos repetem a mesma façanha, desta feita, mais atentos à minha reação do que propriamente ao assunto que estávamos a explorar. Claro está, gerou-se um silêncio estranho na sala enquanto aguardavam uma explosão automática face à quebra da regra!


Respirei fundo e contei até 10... o silêncio manteve-se na sala à medida que a expetativa aumentava. Sem saber bem o que fazer, parei, sentei-me e, numa voz quase impercetível perguntei-lhes:



- "Será que vocês sabem o que significa XXXXXXX?" - choque imediato de todos os miúdos e novo silêncio. Aguardei pela resposta em silêncio. Conseguia ver o olhar supreendido dos alunos , mas também a falta de conhecimento sobre o significado da mesma expressão.


De imediato percebi que alunos tão novos não tinham noção do que estavam a dizer ou, se de facto o sabiam, não quiseram partilhá-lo com a turma. Calmamente expliquei-lhes o significado daquela expressão para descrever outra pessoa.


- "O quê professora? A sério... que mau!" - percebi que só após a minha explicação haviam compreendido o alcance do insulto, enquanto se mostravam indignados por ela simplesmente existir. Ainda assim retorquiram já sem embaraço algum:


- "Mas eu já ouvi os adultos dizerem isso muitas vezes!!" - estanquei sem saber como responder. Optei pela verdade nua e crua:


- "Por vezes nós, adultos, ficamos tão zangados com algo ou alguém que sentimos necessidade de dizer insultos, como que para nos acalmar!" - escusado será dizer que, desta feita, a reação foi impiedosa e todos concordaram que, fosse como fosse, os adultos não poderiam recorrer a esse tipo de expressões para extravazar frustrações.


Passado alguns minutos de acesa discussão, completamente entretidos na crítica deste tipo de comportamento, buscavam soluções e alguns castigos. Sem me intrometer demasiado, foi colocando algumas questões e, para espanto meu, ao fim de alguns minutos, anunciaram que tinham encontrado uma solução super eficaz!


Fiquei surpreendida com tal anúncio, mas dispus-me a ouvi-los:

- "Professora, daqui em diante, vamos dizer aos adultos que, quando estiverem muito aborrecidos ou zangados, terão de dizer uma palavra engraçada... por exemplo, arco-íris!" E continuaram muito seguros de si: - "Em vez de dizer... que grande XXXX; vão ter de dizer que grande... arco-íris!"

Ri-me com eles, mas pus um ar de incredualidade face a tal solução! Automaticamente, um dos rapazes organizou com outro amigo uma cena para me fazer entender onde queriam chegar. Tinham escolhido uma situação no recreio enquanto jogavam à bola e, fingindo que um deles tinha feito uma falta "à séria", retorquiram em coro - "que grande arco-íris me saíste tu!". Todos se riram, eu inclusive.


O certo é que depois desta conversa que demorou apenas 10-15 minutos, pediram desculpa pelo insulto e me perguntaram se, quando ouvissem impropérios, me poderiam perguntar o que significavam para evitar andar a dizer asneiras "sem saber"! Respondi-lhes que sim e o caso ficou por ali!


Este episódio fez-me repensar toda a minha atitude face às asneiras que os miúdos vão espalhando por vezes nos diálogos entre si. Será que antes de as reprimirmos, não deveríamos explicar-lhes o motivo porque é tão cruel usarmos estas expressões? Será que antes de "rotularmos" crianças como mal-educadas, não devemos deixá-los compreender o verdadeiro alcance do que disseram?



A resposta é óbvia... agora! Após este episódio caricato! Compreendi que muitas vezes nos precipitamos enquanto educadores para tentar "minimizar" o comportamento desviante, sem, no entanto, nos questionarmos realmente do que o originou e que, não raras vezes, preferimos assumir que é uma questão de má educação do que de puro desconhecimento.


Acreditem, neste dia, foram os meus alunos que me ensinaram a ser mais "adulta" e responsável face aos meus comportamentos e não o contrário!!


XOXO Obrigada :)











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