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  • Isabel Valente

Birras – já conhece a sua linguagem incrível?

Updated: Feb 20


Este mês na nossa secção – “Aprendendo a ser + Pais”, iremos mergulhar a fundo no universo incrível que são as birras! “Incrível?!? Não, não me enganei e perdoem-me todos aqueles que prometem dicas e truques “infalíveis” para acabar com os momentos mais inoportunos de gritos, choro e amuos que os nossos filhotes têm o condão de escolher, deixando-nos, não raramente, à “beira de um ataque de nervos”!


A verdade é que, se buscamos apenas acabar com o incómodo que é ter uma criança, tal qual desenho animado, a gritar e a chorar no meio de um supermercado porque quer um chocolate, não estamos verdadeiramente a fazer a diferença para ela. Estamos sim a acabar com o nosso embaraço de ter de lidar com a birra em frente a desconhecidos que teimam mais em julgar do que ajudar. E daí que sejam tão frequentes as palmadas, os berros e os nervos em franja de quem quer rapidamente terminar com tudo aquilo.


Não julguem, porém, que o objetivo é condenar os pais a mil anos de culpa por nem sempre saberem como agir nestas situações de maior tensão. Pretendo sim apelar à vossa veia de detetives e, usando da vossa curiosidade e paciência mindful, procurar compreender porque se transformam os nossos adoráveis filhotes em verdadeiros dragões nestes momentos, para só depois vos munir de ferramentas para que possam agir de forma mais calma e consciente.


Partilho convosco uma estória pessoal que me abriu os olhos para o que está realmente por detrás das birras dos nossos filhos. Ora vejam:


Cá por casa as birras eram frequentes quando íamos ao supermercado ao final do dia, sempre na esperança de uma passagem rápida que impossibilitasse qualquer chatice, mas sempre com o mesmo resultado – “Mãe, posso levar isto? E isto? () Tu nunca nos deixas levar nada!! Dás-me colo? Não quero ir no carrinho! Por que é que o mano vai no chão e eu não!. Confesso que cheguei a deixar as compras a meio para fugir envergonhada do supermercado habitual. Nesse dia, um dos nossos filhos perguntou – “Podemos então ir para casa agora? Estou tão cansado!” – acreditem ou não, só aí percebi a razão de tanta birra. 


Os nossos filhos estavam demasiado cansados para correrem pelo supermercado à pressa para ir buscar qualquer coisa para o jantar. Foi nesse dia que finalmente compreendi que as birras são um pedido de ajuda (mais ou menos dramático!) de quem não sabe ainda gerir emocionalmente o cansaço e a frustração que o dia-a-dia nos traz.


Elas são, pois, as birras, o resultado de ignorarmos (ainda que de forma inconsciente) as necessidades dos nossos filhos e serão tanto ou mais gritantes quanto mais nos debatermos para ver quem ganha ou quem tem mais poder – nós ou eles!! Se em vez de tentarmos mudar apenas o seu comportamento, procurarmos identificar a necessidade que não está a ser suprida, provocando assim uma reação exagerada, estaremos então a fazer ótimos progressos.


No entanto, há que distinguir necessidades de desejos! As necessidades dizem respeito ao que é essencial para sobrevivermos fisiológica, social ou emocionalmente enquanto que os desejos se referem à vontade de ter ou experienciar algo para além do nosso bem-estar físico e psicológico. Vejamos, se por um lado conseguimos controlar o nosso desejo de comer fast food, será muito mais difícil ignorar a fome ou o frio.


Por que será tão importante esta distinção?


Na realidade, enquanto pais, é nossa função assegurar que todas as necessidades dos nossos filhotes são satisfeitas (fisiológicas, sociais e emocionais), mas é também nosso dever garantir que a nossa vida ou as suas não são controladas por caprichos e desejos que têm mais que ver com obstinações pessoais do que por reais necessidades.


Assim é essencial identificarmos o tipo de necessidades das nossas crianças para só depois lhes darmos uma resposta adequada.

  • Se uma criança chora porque tem fome, sede, frio ou sono, só a alimentando, deixando dormir ou aquecendo poderemos acalmá-las. Estas são as necessidades fisiológicas;

  • Já se uma criança chora por se sentir insegura, com medo ou perdida, precisamos reconhecer a sua emoção e fazê-la sentir-se segura, abraçando-a, falando com ela e, na medida do possível, controlar o ambiente em que se encontra para minimizar essa sensação, por exemplo, usando uma luz de presença durante a noite, partilhando com ela truques que a façam sentir mais no controlo do contexto que a rodeia, etc.

Todavia, há momentos em que as nossas crianças poderão sentir falta de afeto, conexão, respeito ou empatia, dê-lhes atenção de “filho único”, “perda-se” com ele numa batalha de cócegas infindável, escute-o para compreender mais do que para responder e, finalmente, valorize-o e surpreenda-se com as suas tiradas, piadas e conclusões baseadas na sua lógica tão própria – a “lógica da batata” como lhe chamamos cá em casa. Só assim conseguirá responder às necessidades de pertença e estima que o seu filho precisa e deixar-lhe o caminho aberto para que se autorrealize, no verdadeiro sentido da palavra.


Por isso, da próxima vez que se confrontar com uma daquelas birras, respire fundo, dê um passo atrás e procure perceber qual a necessidade que não está a ser satisfeita e procure responder à mesma. Não garanto resultados milagrosos, mas sim uma conexão mais intensa com os seus filhotes e, acima de tudo, um maior respeito pelas pessoas únicas e irrepetíveis que eles são!!


Se quiserem descobrir mais sobre o que está por detrás das birras monumentais dos nossos filhos e como poderemos lidar com elas da melhor forma, inscrevam-se no próximo workshop de Parentalidade Consciente que terá lugar no dia 30 de janeiro às 15h (link para inscrição)



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