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  • Isabel Valente

Bom humor na parentalidade – possível ou mera utopia?

Usando as palavras das nossas crianças que são por vezes “demasiado” honestas nas horas mais impróprias – “gosto mais do pai do que de ti, mãe! Ele é mais engraçado e bem-disposto!” Depois de alguns segundos de choque, apercebo-me, entre o meio magoada e a tentativa de os fazer mudar de opinião, que também eu tenho potencial para a brincadeira.


Imito a voz do pai e a sua postura mais descontraída e resolvo desafiá-los a fazer uma corrida para ver quem arruma mais em 5 minutos!! E eis que magicamente o quarto passa de um cenário de quase catástrofe a museu com imensas gargalhadas e competição pelo meio!!



Deitámo-nos na cama “freshly-made” a rirmos por aqueles 5 minutos bem dispostos de arrumações, já sem nos lembrarmos de confirmar quem ganhou – este é o poder do bom humor!! Desde esse dia que procuro tornar as “coisas ais aborrecidas do mundo” em algo mais positivo, seja a tarefa de lavar a loiça ou de dobrar roupa enquanto contamos piadas uns aos outros, seja o limpar e o arrumar a casa enquanto exageramos no karaoke!!


A verdade é que não temos de ser ridículos ou palhaços para educarmos as nossas crianças de forma mais bem disposta. Temos sim de adotar uma postura e atitude de boa disposição, de quem prefere ver a vida pelo filtro do copo meio-cheio sem, contudo, ignorar o direito que todos temos de nos sentirmos tristes ou menos alegres!!


Se procurarmos usar o filtro mais solar e, garanto que é preciso prática diária e persistência, estaremos a ensinar aos nossos filhos o poder do bom humor, da empatia e da gentileza para consigo mesmos e para com os outros, mais pelo exemplo do que por palavras.


Claro está, nem sempre resulta! Mas, quando isso acontece, o ambiente torna-se mais tenso, a tarefa interminável e, não raramente, sentimo-nos tentados a resolver tudo nós mesmos num acesso mudo ou demasiado sonoro de raiva e frustração.


Pois bem, há dias, decidimos falar do bom humor cá por casa e da falta que isso nos faz… a todos (mas com humor à mistura, é claro)!! Explicamos-lhes quão contagiante é o riso e quão magnetizante é a alegria por oposição aos amuos e lamentações resmungadas por entre dentes.


Tivemos direito a imitações caricaturadas e a rirmos de nós próprios enquanto identificávamos, ainda que de forma não planeada, o que levava normalmente cada um “à loucura”. Ficamos admirados com a consciência que os nossos miúdos têm dos triggers das nossas más-disposições e de quão resilientes eles são face aos mesmos.




Apesar de tudo isso, explicamos-lhes que o mau humor (persistente!) é um sintoma de que algo não está bem connosco mesmos – poderemos estar cansados ou frustrados, sentirmo-nos envergonhados ou humilhados ou até mesmo doentes e que, tal como uma gripe, também isso precisa de ser tratado, “abraçado” e não simplesmente ignorado ou dramatizado. Por outro lado, explicamos-lhes que o mau humor é também uma forma de desrespeitar os outros, tonando mais negro o seu dia e silencioso o seu riso.


Por isso, resolvemos fazer um brainstorming mais ou menos informal de como tornar o ambiente cá por casa mais risonho, sem cair no exagero! Porquê? Porque todos merecemos estar rodeados de pessoas que nos acrescentem e nos transmitam energia positiva, no início ou no final do dia, porque reconhecemos as nossas prioridades enquanto família e porque percebemos que, apesar de diferentes, todos somos preciosos!!


Partilho com vocês algumas das nossas ideias e outras que me parecem particularmente felizes para estarmos mais bem dispostos connosco mesmos e com os outros:


1. Dê um tempo a si mesma antes de estar com os seus filhos no final do dia! Isto permitir-lhe-á parar e relaxar um pouco depois do trabalho, evitando que o cansaço e as frustrações do dia a impeçam de sorrir quando voltar a estar com os seus filhotes! Poderá meditar, ouvir música, tomar um chá com uma amiga… o importante é reequilibrar energias!


2. Adie por 15 minutos todas as tarefas domésticas, os banhos e afins ao chegar a casa e deleite-se com as estórias que os seus filhos têm para lhe contar do seu dia, no sofá ou nos almofadões do quarto, sem telemóveis ou interrupções. Garanto que depois terá os seus “diabinhos” mais disponíveis para colaborar.



3. Seja clara e positiva no que diz respeito ao trabalho e tarefas a realizar ou poderá surpreender-se com os seus filhos a suspirar pela casa enquanto arrumam as suas coisas ou realizam as tarefas escolares. Concentre-se no que já fazem muito bem e acarinhe a sua iniciativa e autonomia.


4. Equilibre o dia para si e para eles. Ninguém gosta de passar o dia inteiro a fazer tarefas domésticas ou a trabalhar. Em vez disso, organize o seu dia para que, não deixando tudo para o último momento, possa disfrutar de um bom filme ou uma tarde na cozinha com os mais pequenos, estando 100% presente!!


5. Relativize quando algo correr menos bem, concentrando-se antes em como melhorar do que na culpa por algo que já aconteceu. É incrível como, enquanto pais, esperamos que os nossos filhos saibam fazer algo, sem, contudo, os ensinarmos a fazê-lo.


6. Reconheça os seus sentimentos menos positivos e dê-lhes espaço para se acalmarem. Cá em casa percebemos que, se o mais novo se consegue acalmar em 5 minutos, o mais velho precisa de mais tempo para o fazer… há que respeitar os seus tempos sem pressionar em demasia.


7. Aprenda a rir-se de si mesmo e seja genuíno. Haverá dias melhores e outros piores, mas lembre-se que uma boa relação se cultiva com amor, respeito mútuo e… muitas gargalhadas!!


No final de tudo isto, importa lembrar que, no que diz respeito à conexão e relação com os nossos filhos, é importante persistir com humor, desdramatizar erros e falhas e focarmos mais em conseguirmos alternativas satisfatórias para algo que correu menos bem do que insistir no jogo das culpas que a todos magoa!



Se no final do dia estivermos cansados, mas ainda assim cheios de vontade de falar de alguns momentos mais engraçados, então estamos no bom caminho! Se tal não acontecer, recomecemos amanhã com a certeza de quem sabe o que quer - ser mais felizes com os nossos filhos e parceiros... em família!!


Isabel Valente,

Mãe, professora e Facilitadora de Parentalidade Consciente

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