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  • Isabel Valente

Os medos das nossas crianças!


“E de novo começa a chover! As bátegas de chuva não batem mais levemente na vidraça da janela, sucedendo-se antes furiosamente num ruído pouco tranquilizador, quando eis que de repente me sinto apertada por umas mãos que, não sendo já minúsculas, buscam ainda a segurança e o conforto de uma mãe super-heroína no limite da idade da fantasia!


- Sim, tenho medo mãe! – enquanto se esconde por baixo dos meus braços!

- É chuva… apenas um aguaceiro forte lá fora. Vai parar não tarda nada!! – respondo sorrindo.

- Como podes ter tanta certeza disso? Como consegues garantir-me que a chuva vai parar em breve, se em muitos países acontecem inundações, derrocadas e mortes diariamente?

- Confia em mim!! Sou crescida e adulta e, acima de tudo, sou tua mãe e nunca deixei que nada de mal te acontecesse, pois não?

- Pois, mas tu devias saber que, por mais que gostes de mim, não me podes proteger de tudo!! Há coisas que simplesmente não dependem de ti!! – desespera-se visivelmente agitado.”


O que fazer quando nos apercebemos que o medo que os transtorna por vezes baseia-se na certeza que todos somos apenas humanos? E que, apesar de os amarmos “daqui até à lua e voltar” não temos superpoderes que os protejam das realidades mais duras e dramáticas do nosso mundo?


Muito de nós se questionam face a estes medos!

E, mais ainda, muito de nós receiam estas perguntas para as quais não parece existir em todo o universo uma resposta 100% satisfatória que garanta a pais e filhos o alívio que ambos merecem!!


Compreendamos, porém, que esta “aparente” perda de inocência que parece toldar o sorriso outrora ingénuo dos nossos filhos, mais não é do que o resultado do crescimento e desenvolvimento dos nossos filhos e da emergência de uma nova consciência de si mesmo e do mundo, onde eles deixam de ser “o mundo” e passam a ser mais uma pessoa no planeta Terra.


É o ponto de não retorno ou, se quiserem, a crise de Rubicão que nos retira a bravura aos mais destemidos super-heróis de lá de casa por volta dos 8 ou 9 anos!!


E apesar de tão crescidos (para nós apenas em tamanho!), torna-se difícil ver quanto lhes dói esta passagem para uma idade que já não é de infância crédula e fantasiosa, mas de uma infância que, não sendo pré-adolescente, os coloca num novo nível de confronto com o mundo que os deixa receosos da morte, da perda e da certeza que as suas decisões têm consequências e impactos que nem sempre serão fáceis ou desejáveis!!



Assim, e ao contrário do que nos apetece tantas vezes, a solução não é de todo infantilizá-los mostrando que para nós serão sempre pequenos, mas sim falar-lhes com calma, explicar-lhes como nos “prevenimos” enquanto adultos para situações mais dramáticas e perigosas; para o incontrolável e de como é essencial avaliar o risco sem medo, pânico ou exageros!

Contudo, também esta hipótese poderá ser demasiado adulta e até um pouco impiedosa, antecipando situações que, em princípio, jamais levarão a situações de tragédia.


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E, eis que num momento mais tenso de impossibilidade de fugir de um aguaceiro tremendo, damos por nós, sem quase falar e concordando apenas com o olhar (porque os pais também têm momentos destes!), a baixar os guarda-chuvas e deixar-nos ensopar enquanto a chuva vai lentamente desaparecendo…


- Pai! Mãe!! O que é que estão a fazer? Está mesmo a chover muito!! E não sei se vai parar!! Vocês não têm medo?

- Nop – diz o pai pouco dado a dramas! – Já estamos molhados e já…!

- Olha! Já quase não chove! – diz a mãe apaziguadora!

E os seus olhos incrédulos e desconfiados fitam os pais com uma dúvida que teima em assolar-lhe o espírito. Mudemos de assunto…

- Quem quer um gelado? Ou quiçá uma tripa? – pergunta a mãe

- Ó mãe… à chuva?! – responde um pouco birrento!!

- Sim, mas só se for à chuva!! Todos!! Sem desistências… topas? – diz o pai corajoso!!

- OK, mas tem de ter 2 bolas!!


E sem mais demoras, nem esquisitices, sentamo-nos a deliciar os nossos gelados, todos ensopados enquanto nos ríamos da chuva miudinha e dos desgraçados que teimavam ainda em fugir da chuva! Fomos para casa a pé! Deixamos o carro na festa como dizem eles!

Já após um banho bem quente e confortavelmente aconchegado na sua cama, eis que surge a confirmação de mais uma batalha ganha:

- Obrigada por gostarem tanto de mim. Adoro-vos apesar de serem tão malucos!!


Congratulamo-nos em silêncio com a certeza, porém, que outros desafios se avizinham e que nem sempre saberemos o que fazer. Contudo, esse é o nosso papel, estarmos presentes e mostrar-lhes quão incondicionalmente os amamos, deixando espaço para que descubram passo a passo o mundo, com as suas vantagens e desvantagens, com as suas áreas mais cinzentas do que pretas ou brancas.


A Crise de Rubicão é o primeiro momento em que se veem e percebem como um ser individual, já não tão claramente dependente dos pais, pensando diferente e, apesar de todos os medos e inseguranças, é um ótimo momento para ajudá-los a desenvolver a coragem e a capacidade de relativizarem adversidades. Nem que seja apenas a coragem de dormirem sozinhos a noite inteira ou enfrentarem a chuva ou o vento!


Estejamos, pois, atentos aos seus medos e, reconheçamos o direito dos nossos filhos a senti-los, compreendendo-os e crescendo assim enquanto pais, sem excessos ou exageros, para que estando a aprender a voar a solo, possam ter em nós um refúgio sempre seguro!!


Isabel Valente

Mãe, professora e Facilitadora de Parentalidade Consciente


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