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  • Isabel Valente

Passei-me... e agora?

Como gostaria de dizer que sou uma mãe e professora zen, sempre consciente e positiva... a toda a hora e em todo o lugar? Bem, não sou, de todo!


Há dias em que pareço atingir o limite, em que francamente me é mais fácil esbugalhar os olhos, semicerrar os punhos enquanto procuro mentalmente contar até 10 001 antes de lançar algumas palavras num tom mais agudo que o normal para as minhas crianças ou adolescentes. Não temam, não estou a ficar louca... estarei?


Talvez um pouco, mas confesso que até isso eu acho "quite normal!". Senão vejamos, todos temos limites que, uma vez ultrapassados nos fazem saltar de medo, choque ou revolta... chamam-se VALORES. Incrivelmente num mundo onde todos se queixam da falta deles, são eles que nos orientam no dia-a-dia e nos ajudam a tomar decisões!!



Pois bem, os meus limites e valores têm sido colocados à prova nos último dias! É o teletrabalho, são as tarefas domésticas, são os filhotes e o marido a exigir atenção e miminho, são os alunos que precisam de conversar muito mais do que receberem conteúdos num equilíbrio que nem sempre é o desejado ou o mais saudável.


E no meio de tudo isto dou por mim a tentar ir além do que normalmente vou para arrancar sorrisos e gargalhadas aos pequenos "prisioneiros" por esse Portugal fora - seja preparando aulas de culinária em inglês, usando música, arte ou piadas mais ou menos engraçadas e desafios que os fazem mexer e competir um pouco mais, enquanto aprendem e criam memórias positivas apesar de toda esta situação de confinamento social.


Notem que sou apenas uma entre muitas mães e professoras que, nos tempos que correm, têm dado o litro para acompanhar famílias e os "filhos emprestados" que temos o privilégio de ensinar todos os dias, formando-me dia-a-dia para poder melhorar enquanto professora, mãe e ser humano.


E eis que de repente, após dias de trabalho intenso de alunos e professores com resultados além do esperado, oiço surpreendida uma data de "adolescentices" que me quebram a alma e o sorriso. Relevo uma vez... afinal são adolescentes e relativizo! À 2.ª interrupção, paro e pergunto o que está na origem de tal frase, pois também eles precisam aprender a gerir emoções neste tempo de mudança e ajustes. Silêncio total, nada... e quando finalmente procuro retomar, sou de novo interrompida!!


997, 998, 999, 1000... Passei-me!!


Numa voz mais mais elevada que o habitual expliquei-lhes que o respeito é algo que prezo imenso e que se cultiva em ambas as direções e não apenas do professor para alunos; que compreendo as suas frutrações e que a minha disponibilidade não mudaria apesar deste episódio. Contudo, acima de tudo, exijo verdade, clareza e trabalho, para mim e para eles!


"Estraguei tudo!" - pensei eu, mas algumas horas depois percebi... será errado clarificar limites, explicá-los e mostrar-lhes porque considero isso importante?



Claro está, não me orgulho do tom de voz ou de sequer ter de o fazer, quando francamente me orgulho do meu trabalho e do trabalho dos meus alunos todos os dias, mas educar é também falarmos sobre isto, sem medo ou receio de represálias!!


Não vou pedir desculpa por fazer o meu trabalho ou por me entregar de coração a tudo quanto faço; de estar lá para os meus alunos quando precisam (muito para além do tempo de aulas) ou por clarificar limites saudáveis e com base no que (pasme-se!) deveria ser o igual valor de adultos e crianças!


Serei pior mãe ou professora por me ter passado? Não creio!


Serei melhor mãe ou professora por ter a coragem de clarificar limites e aprender com isso? Certamente, mas sei também que preciso escutar mais com os olhos e com o coração o que crianças e adolescentes nem sempre conseguem dizer por que isso sim, é ser verdadeiramente professor!!




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