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  • Isabel Valente

Quando eles não aprendem a ler (no nosso tempo!)

Et voilá! Setembro já passou e eis que os nossos filhotes, tão pequenos há um ou dois meses, começam agora a dar os primeiros passos nessa grande aventura que é a aprendizagem da leitura!!

Desengane-se, porém, quem acha que este “fenómeno”, que é aprender a ler, vem com instruções e pozinhos de perlimpimpim que basta juntar numa qualquer mistura instantânea para obter resultados fantásticos em dois ou três tempos!! Não é assim. De todo!


Temos as letras que os alunos vão conhecer, os sons e as grafias que as mãos ainda pequenas vão procurar reproduzir à lupa (por vezes com a língua de fora!) e as combinações infindáveis das mesmas em casos de leitura especialíssimos que os deixam maravilhados como se de um tesouro se tratasse. Começam a querer mostrar os seus dotes, fazendo discursos apenas com palavras iniciadas por A ou por O em monólogos estranhos, mas cheios de brilho no olhar.


Impacientes, os pais, interrompem muitas vezes estes pequenos espetáculos de quem se orgulha de aprender algo com o potencial de os levar a novos mundos, para os reduzir ao espírito técnico da coisa – “Mas então, já sabes ler?” ou então “Mas ainda estás no A”?


Não! Não há nada de errado com os vossos filhos! Não estão atrasados ou têm dificuldades de aprendizagem. Têm sim o seu próprio ritmo que não se compadece com a pressa ansiosa dos pais.


A verdade é que, não raras vezes, passamos para eles esta ansiedade de quem não se lembra como aprendeu a ler e, aí, começam as inseguranças, o medo de falhar e a vontade de nem sequer arriscar para não desiludir – a eles mesmos e aos pais!


Dêem-lhes espaço! Deixem-nos sonhar só com duas ou três letras, fantasiar e comunicar em sílabas de uma só consoante e uma só vogal e aprendam que tudo isso faz parte da leitura.

Eu já aprendi, ou antes, já passei pela experiência duas vezes! A verdade é que se o nosso filho mais velho leu o “Diário do Banana” no Natal do primeiro ano, (porque quis, é claro!), o nosso mais novo demorou mais um pouco, começando a ler só no final de fevereiro, o que gerou uma comparação e ansiedade injustas e, acima de tudo, injustificadas. Enquanto que o primeiro se deliciava com o desafio de juntar letras em voz alta, combinando e recombinando sons para compor palavras e perceber o disparate que o protagonista do livro havia feito desta vez; o mais novo não se divertia tanto assim, lendo parte da estória à noite, só para ter a oportunidade de fazer as vozes engraçadas do livro daquele dia e pouco mais.


Começamos a pensar e a pressionar demasiado. Resultado: em vez de ir atrás do desafio, fugia da pressão com medo de falhar, diminuindo-se frequentemente em relação ao irmão. Percebemos que tínhamos de dar tréguas ao nosso filho para que o brilho no olhar renascesse quando falássemos de livros, estórias e afins. Falamos com a professora que nos acalmou e nos disse simplesmente – “divirtam-se enquanto leem com ele e deixem que o resto acontecerá naturalmente”.


Passado uns dias de tréguas, numa ida às compras enquanto esperávamos na fila da peixaria, comecei a ouvir o nosso filhote a tentar juntar as letras – “Ca…. Ra... p…au – aquele peixe chama-se carapau, mamã!” Parecia magia! Resisti à tentação de pedir mais, mas ele continuou… “acho que aquele é o a…tu...tum. É o atum, mamã e não vem em lata!”. Quando chegamos a casa, celebramos a boa-nova e deixamos que fosse ele a ter a iniciativa de ler mais. Surpreendentemente, não descansou enquanto não leu os rótulos dos alimentos que estavam no armário ao seu alcance e, sentado no chão, foi construindo palavras e sorrisos.


Tinha-se dado o clique e, de repente, víamos o nosso filho parado pela casa, qual hipnotizado pelas letras, a tentar descortinar-lhes o significado. Para o ajudarmos, pensamos em diferentes formas de o fazer praticar de forma mais ou menos (in)consciente a leitura, o que teve o condão de o fazer sentir-se capaz e cada vez mais autónomo. Partilho convosco algumas delas:

  • Escrever a lista das compras (2 ou 3 palavras, não mais de início!);

  • Trazer o peixe que lhe pedíamos do congelador, lendo a etiqueta;

  • Buscar o detergente com o nome X para colocarmos na máquina a lavar roupa;

  • Perguntar-lhe o nome de algum fruto mais exótico na frutaria;

  • Ler o post-it de bons-dias que ficou na mesa do pequeno-almoço;

  • Ler uma mensagem no telemóvel, porque a mãe tinha as mãos ocupadas;


Um mês depois, aventurou-se a ler o seu primeiro livro em voz alta - “O cato quer mimos” de Alberto Faria e Ana Ventura e, adormeceu feliz com o livro nos braços. Aquele era o seu maior tesouro naquele momento – a alegria de ter conseguido, com o seu esforço de super-herói como repetia sempre. E foi… um herói de palmo e meio que aprendeu a ler e nos ensinou, enquanto pais, a respeitarmos o seu ritmo sem comparações e ansiedades injustas.


Por isso, da próxima vez que falarem sobre como os vossos filhos já deviam fazer isto ou aquilo, mudem o discurso! Foquem-se no presente e celebrem tudo o que ele já consegue fazer. O resto… orientem, estejam atentos e façam das aprendizagens um jogo, dando-lhes espaço para tentarem, errarem e superarem-se sem os sufocarem!!


Poderão não ser os primeiros a ler na turma, mas terão com certeza uma melhor autoestima – uma preciosidade rara nos dias de hoje que vale a pena estimular!!


Isabel Valente

Mãe, professora e mestre em Educação

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