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  • Isabel Valente

Seja consistente não "chatinha" com o seu filho!!

Há dias, já um pouco farta, de me repetir vezes sem conta, convoquei uma reunião de emergência cá em casa com toda a pompa e circunstância! Escusado será dizer que os olhos esbugalhados dos nossos filhos exigiam respostas rápidas e claras.


Respirei fundo... uma e outra vez e, enquanto deixava que o silêncio se abatesse à mesa e o ponteiro de agitação se acalmasse, dei por mim a pensar como conseguiria transmitir aos meus filhos a frustração que me ia na alma por me estar constantemente a repetir, a insistir e a persistir enquanto em vão tentava não levantar a voz para que eles fizessem algo que, à partida, já saberiam que tinham de fazer,


Devo ter demorado imenso tempo, porque os olhares passaram de esbugalhados a preocupados e, um pouco receosos perguntaram - "Estás bem mãe? - acenei que não e, num fio de voz, expliquei-lhes que estava simplesmente farta de ser tão... chata!! Se o mais pequeno disfarçou o riso, o mais velho ficou no mínimo, surpreendido e até confuso.


- "O que queres dizer com isso, mãe?"


Prossegui com a calma que me foi possível e respondi-lhes que era difícil estar constantemente a dizer a mesma coisa ou a relembrá-los sobre as suas tarefas ou obrigações, sobretudo quando eles mesmos sabiam que tinham de as fazer. Após um silêncio breve, o mais velho respondeu:


-"Se eu estivesse no teu lugar também me sentiria assim mãe!" - surpreendi-me com a tirada e empatia - "mas acho que desligamos quando começas a repetir-te muito!" - balde de água fria!!


Confesso que, sem nada de construtivo para dizer e, perante o choque, remeti-me a um silêncio que se revelou precioso, porque o mais pequeno retorquiu:


-"Às vezes não oiço mesmo, porque estou muito ocupado a brincar! Mas, às vezes, eu oiço o que dizes, mas não me apetecer fazer... por isso continuo a brincar!"


Agradou-me a sua honestidade e, face ao descontentamento generalisado, propus pensarmos juntos numa solução que resolvesse o nosso problema a que carinhosamente quisemos chamar de - "A odisseia da mãe chatinha e dos seus adoráveis filhotes mouquinhos!"... riso geral!!


O mais novo levantou-se de imediato para ir buscar papel e caneta e o mais velho começou a pensar alto - admirei-os pela sua iniciativa e proatividade!!


- "Porque não combinamos horas certas para fazer as nossas tarefas? Assim, não terias de estar sempre a chamar-nos e a ser chatinha mãe?" - disse o mais velho. - "Mas... e se não me apetecer dobrar a roupa ou limpar o quarto naquela hora?" - retorquiu o mais novo.

Expliquei-lhe que poderíamos rever as condições do nosso trato, mas o que ficasse ali combinado teria de ser cumprido. Expliquei-lhes também que, se existem tarefas e contributos que todos fazemos diariamente; poderão existir outras situações em que necessitaríamos da sua ajuda e colaboração.


Ficaram pensativos mas... concordaram, pedindo que respeitássemos o seu tempo de brincadeira, maluquice ou simplesmente de preguicite, desde que tal não colocasse em causa as horas das tarefas ou as "situações especiais".


Concordamos e selámos o acordo com um iogurte "homemade special" e claro, a assinatura do papel que se encontra agora em exposição na parede da cozinha.


Claro está a odisseia não terminou por completo, mas posso assegurar-vos que o nível de chatice cá por casa, baixou cerca de 50%. Os miúdos são os primeiros a relembrar a hora das tarefas - "já não precisas de nos avisar, mãe!"; sentem-se mais ouvidos, responsáveis e eu aprendi a respeitar mais o seu tempo e o seu espaço.


Já quando por qualquer razão tenho de os chamar à atenção, sinto-me mais calma e clarividente usando de estratégias mais eficazes para me escutarem.


Partilho convosco 5 ferramentas valiosas que me têm ajudado nesta odisseia familiar de ser... menos chatinha!

  1. Garantir primeiro a sua atenção para só depois começar a falar, por ex. estar na mesma divisão, baixar-me ao nível dos seus olhos e tocar de levemente no braço;

  2. Ser mais objetiva e usar menos palavras (10-15 palavras é o meu limite... ainda!)

  3. Ser consistente e, porque não, previsível! As rotinas têm o condão de nos ajudarem a estabelecer hábitos sem estarmos constantemente a torturar os nossos filhos com regras. Aproveitemos isso! Por exemplo, tens de lavar os dentes todos os dias, arrumar os brinquedos antes de ir para a cama, etc.

  4. Evitar repetições desnecessárias com a desculpa de "é só para te relembrar", pois isso mostra que não estamos prontos a abdicar do controlo e a confiar nas capacidades dos nossos filhos. Se eles se esquecerem de algo, perguntem apenas e sem ironia, se eles se esqueceram de fazer algo importante. Lembrar-se-ão na hora!

  5. Mostrar que confiamos neles, pois adoram sentir-se valorizados e validados por nós. Façamos parte da nossa rotina mostrá-lo mais por atos do que por palavras!


Este é um testemunho de uma mãe atenta e em busca de uma consciência e parentalidade plenas. Partilhem connosco os vossos desafios e estratégias para os gerir nestes tempos difíceis de pandemia!!


Abraço apertado,


Isabel




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