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  • Isabel Valente

Sobre a importância de um “growth mindset”


“Isto é difícil!” Ou então “Eu não percebo nada disto! Estou farto... eu não nasci para isto!” são frases recorrentes nas bocas de crianças e jovens face a uma ou outra disciplina escolar que não raramente lhes arrasam a mente e a alma, deixando-lhes a confiança e autoestima num caco. Como se tal não bastasse, cerram os punhos e mordem o lábio com a certeza quase infinita que não são dotados o suficiente para fazer frente, qual campo de batalha, aos conteúdos quase abstratos de uma qualquer gramática ou disciplina mais impertinente que parece teimar em lhes fazer a vida negra.

E nós, pais, professores, familiares ou até vizinhos... como reagimos a estas autênticas tempestades que tornam os olhos das nossas crianças e jovens mais cinzentões na hora de voltar à escola?

“Pois, eu também não era grande coisa a filosofia ou matemática!” ou então “Deixa lá, foca-te nas outras e tenta é tirar positiva a essa disciplina!” ou pior ainda “Nem todos podemos ser doutores!” - Será mesmo este o caminho?

Acreditamos que todos estamos reservados a realizar grandes coisas, que todos temos um potencial enorme. Mas para que isso possa de facto acontecer, é importante que compreendamos o quanto a nossa atitude face à vida, às diferentes situações e pessoas moldará também a nossa capacidade de lidar com as mais variadas situações, de sermos resilientes e, em última instância, de sermos felizes!

Não somos apologistas de um otimismo vago, pretensioso e ridículo até (tão em voga por estes tempos!) e que não raras vezes nos faz sentir culpados por termos sentimento reais. Queremos antes educar a mente das nossas crianças para que possam lidar com as pequenas ou grandes adversidades do dia-a-dia sem dramas ou birras, mas com a certeza de que, mudando de estratégia, tentando de maneira diferente, aprendendo com os erros, inspirando-se nos bons exemplos, trabalhem e empreendam de forma eficaz e, acima de tudo, de forma determinada e motivada.

Possível ou mera utopia?


Possível, mas apenas se de forma consciente, propositada e articulada, nos dedicarmos (escola e famílias!) a ensinar crianças e jovens que a plasticidades mental é real e que, por isso mesmo, se o nosso cérebro é um músculo, quanto melhor e mais frequentemente este for trabalhado, melhor será a sua prestação. Na verdade, até aos cientistas, artistas e personalidades mais famosas pela sua genialidade tiveram de trabalhar arduamente, tal como nos deixam ver pelas citações abaixo:


“Genius is 1 Percent Inspiration and 99 Percent Perspiration”

Thomas Edison

“Genius is 1 percent talent and 99 percent hard work. To make anything pay off, one must be a dedicated and persistent individual, facing own mistakes as learning opportunities and never going back to where he was before!”

Albert Einstein


Esta é de facto a grande conclusão dos estudos desenvolvidos por Carol Dweck, que juntamente com a sua equipa, se dedicou a analisar as razões que levam milhares de crianças a adotar atitudes mais positivas ou negativas face ao insucesso. O que leva crianças com o mesmo background, faixa etária e até condições sociais a reagirem de forma tão distinta face a uma pequena ou grande dificuldade na escola?


Depois de vários anos de trabalho, Dweck descobriu que as crenças adjacentes à perceção que crianças e jovens têm da sua aprendizagem e inteligência são determinantes para a forma como reagem às adversidades em meio escolar. Assim, “when students believe they can get smarter, they understand that effort makes them stronger. Therefore they put in extra time and effort, and that leads to higher achievement” (Blackwell, Trzeniewski & Dweck, 2007). Todavia, o oposto também será verdade, com resultados normalmente catastróficos para a autoestima de crianças e jovens.


Desta forma, é importante conseguirmos mudar a perceção de que todos nascemos com um nível fixo de inteligência, estando por isso mesmo como que categorizados de acordo com este.


A verdade é que só percebendo as implicações desta forma de ver o mundo, poderemos compreender mais aprofundadamente o que há a fazer para ajudarmos as nossas crianças e jovens a adotar uma postura interessada e motivada face à escola, havendo maiores ou menores dificuldades.

Assim, quais as diferenças entre “Fixed mindset” e “Growth mindset”?

Quando um indivíduo acredita que nasceu com uma “quantidade” fixa de inteligência e/ou capacidade e que é impossível mudá-la, inevitavelmente verá o seu esforço, bem como qualquer adversidade, como algo negativo que vem apenas comprovar que não é inteligente o suficiente. Esta crença irá levá-lo a uma espiral descendente ao nível da sua autoestima e sentimento de autoeficácia e, consequentemente, à desistência face à firme certeza da sua incapacidade. Daí que a motivação seja normalmente vista como o problema, quando esta não passará apenas de um sintoma de que algo precisa mudar, muito mais internamente do que externamente.

Já quando o indivíduo tem a firme certeza de que a sua inteligência e capacidade são maleáveis e podem por isso mesmo serem desenvolvidas, o esforço e o trabalho afigurar-se-ão como parte natural do processo de aprendizagem e os erros, bem como as adversidades serão apenas indicadores que é preciso mudar de estratégia, tentar de modo diferente para atingir um determinado fim. Esta perspetiva prova-nos que as falhas e o insucesso são ótimos pontos de partida para a mudança e melhoria e frequentemente são indutores de motivação para ir mais além.


O quadro abaixo apresentado, vem sintetizar as diferenças entre uma e outra perspetiva, bem como a forma como estas influenciam a postura e atitude de crianças e jovens em contexto escolar:


Fonte: MASTER, A. (2015). Praise that makes learners more resilient. Mindset scholars network (tradução livre)


Será a Plasticidade mental um novo caminho a percorrer?

Estudos recentes sobre a plasticidade mental mostraram que a conexão entre neurónios muda de acordo com a experiência e prática de cada um. A partir desta são consolidadas relações já existentes e desenvolvidas novas conexões sinápticas que irão acelerar a forma como os impulsos são criados e transmitidos neurologicamente.

Estas descobertas mostram que podemos impulsionar o nosso crescimento cerebral de acordo com as nossas ações, o modo como fazemos perguntas, trabalhamos, interpretamos os erros, bem como pela forma como nos cuidamos, seja em termos de nutrição e hábitos de sono, seja em termos de autovalorização.

Desengane-se, porém, se pensa que poderemos aumentar a capacidade neurológica com meros sudokus ou quebra-cabeças semanais ou diários até. A verdade é que, de acordo com a neurologista, Tara Swart, o tipo de esforço, trabalho e frequência necessários para mudar o cérebro e torná-lo mais maleável, flexível e fazê-lo crescer é equivalente ao feito durante a aprendizagem de um novo instrumento ou língua (2018).

Esta noção é também comprovada pela cientista Paula Marques no seu livro “A Era dos Super-Humanos”, no qual afirma que, situações de grande desafio que causam algum desconforto poderão melhor impulsionar os indivíduos a desafiarem-se e superarem-se por forma a dar resposta a uma qualquer solicitação. Assim, compreende-se que só o trabalho árduo, uma persistência contínua e resiliência ímpares poderão fazer aumentar a nossa capacidade neural.


Contudo, uma questão importante se coloca: como poderemos nós professores e pais, promover a adoção de uma mentalidade de crescimento por parte de crianças e jovens em idade escolar?


1. Ensine crianças e jovens sobre a plasticidade mental

Os cientistas descobriram que é possível promover uma mentalidade de crescimento, ensinando os alunos sobre evidências da neurociência, mostrando que o cérebro é maleável e fica mais forte através do esforço, novas tentativas e estratégias, e procurar ajuda quando necessário. Podemos assim incentivar os alunos a adotar uma mentalidade de crescimento, enriquecendo o processo de ensino e aprendizagem com este tipo de conteúdos, baseando-nos por exemplo em casos de falhanço e sucesso tão épicos como o de Michael Jordan ou Oprah Winfrey.


2. Valorize e elogie o esforço e trabalho – o processo em vez do talento ou inteligência

Não é, contudo, suficiente dar-lhes a conhecer sobre a plasticidade mental. É preciso valorizar o esforço, a mudança de estratégias e novas tentativas, o desafio e o trabalho árduo. Em vez de elogiar o talento, a inteligência ou o facto da criança não cometer erros; devemos antes elogiar-lhe o esforço, o trabalho árduo, a aprendizagem a partir dos erros e a sua persistência, pois só assim aprenderá que é necessário fazê-lo para superar dificuldades e as adversidades da vida.


Deste modo, em vez de dizermos:


Fonte: Lisa Quay, Managing Diretor of the Mindset Scholars Network and David Yeager (tradução livre)


3. Interaja de forma construtiva – acrescente o “ainda” a todas as frases negativas dos seus filhos/alunos

Apesar de todos os cuidados existirão sempre dias em que as nossas crianças estarão, por algum motivo, mais inseguras e fragilizadas. Nesses momentos, ajude-os a relativizar o erro e o falhanço, desdramatizando-o e ensine-os que assim, como a “borracha poderá ser a sua melhor amiga”, também não há mal algum em errar, desde que isso nos faça repensar e reformular as estratégias a aplicar, pedir e aceitar conselhos para melhorar sempre.

Se a sua criança teimar numa atitude de vítima ou autocomiseração, não a ignore, pois tal postura é demasiado séria para que o faça, sendo necessário que interrompa o ciclo negativo de forma clara e indubitável. Ensine-a também a reformular as frases mais negativas acrescentando-lhe expressões como “ainda” e o que poderá mudar, por exemplo: “Eu não consigo fazer isto!” para “Tu ainda não consegues fazer isso, mas se te esforçares e praticares, conseguirás fazê-lo.”


4. Ensine-o a reconhecer o seu próprio posicionamento mental

Ao fazê-lo estará a melhorar a consciência que a criança tem de si mesma, percebendo que a forma como pensa molda também a sua atitude e a forma como encara o mundo. Ensine-o que um diálogo interno positivo que valorize o seu esforço e trabalho fará maravilhas pela sua autoestima, pois mais do que esperar que outros os elogiem, deverão fazê-lo elas mesmas de forma clara, honesta e sincera.



Lembre-se que a frase “you are what you think” ganha novo sentido nesta perspetiva, sendo necessário criarmos espaço para promover a autonomia e valorização pessoal de cada criança e jovem, seja pela atribuição de pequenas tarefas domésticas ou recados, seja pelo reconhecimento do seu esforço e empenho nas mais variadas áreas, bem como na tomada de pequenas decisões.

Ensine-os que cada decisão traz consigo responsabilidades e consequências sobre as quais nem sempre temos controlo, mas que nos ensinam a pensar e agir mais criticamente.


5. Questione-os e ensine-os a agir proativamente

Ensine-os a pensar e refletir sobre o que os faz evoluir diariamente; o que mais os fez pensar no seu dia; os pequenos erros e insucessos, bem como o que aprenderam com estes. A verdade é que só a partir daí poderão pensar sobre o que farão diferente da próxima vez e quais as novas estratégias a implementar. É essencial que o façam de forma positiva e otimista, minimizando dramas e apostando em diferentes estratégias para a melhoria.

Faça perguntas e aproveite quaisquer situações externas para os fazer pensar como agiriam numa ou noutra situação, sem, contudo, julgar as pessoas envolvidas. Em situações mais tensas, ouça primeiro a criança ou jovem, confirme o que se encontra em causa, reformulando e designando com clareza a emoção em causa. Depois, não tenha medo de aconselhar, recomendar e perguntar por exemplo, “O que achas que poderia acontecer se... ?” e, “Ou porque não tentar...?” para o fazer pensar. No final, o importante é que esteja claro para a criança ou jovem o que deverá fazer diferente numa situação semelhante para que possa em consciência compreender se conseguiu melhorar ou não em situações futuras.


6. Seja exemplo – modele uma mentalidade de crescimento

Lembre-se que crianças e jovens refletem de forma mais ou menos consciente o comportamento e as atitudes das pessoas que lhes são mais próximas - pais, irmãos ou outros. Por isso, necessitamos rever o que dizemos ou fazemos quando estamos com as nossas crianças e jovens e, até que ponto, poderemos ser indutores de uma mentalidade fixa ou de crescimento, o que irá certamente influenciar a forma como se sentem em casa ou na escola.

É assim, nosso dever enquanto pais e professores consciencializarmo-nos acerca do nosso tipo de mentalidade e agir propositada e conscientemente no sentido de sermos modelos de uma mentalidade de crescimento para que crianças e jovens possam ir além da estagnação e desânimo que um rótulo lhes poderá trazer e, aprender que desafios e dificuldades fazem parte do caminho e, daí prever claramente aspetos a manter ou a melhorar sem dramas excessivos, mas com um pensamento crítico mais aguçado e uma resiliência mais ousada... porque os sonhos dão trabalho, a sério! Por isso não se esqueçam:


“Your brain is like a muscle. When you learn, your brain grows. The feeling of it being hard is the feeling of your brain growing!”

In www.biglifejournal.com


Redigido por Isabel Valente

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